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O Tao do Alimento
Autor: Erly Ricci
Publicado originalmente na revista Emtempo, em novembro de 1999

Publicado no CMI em 13/10/2002

A Agricultura Orgânica ou Ecológica está em crescimento em todo o mundo e, apesar da lógica que mostra sua a sua eficiência em relação aos custos e à saúde, ainda enfrenta o combate cerrado da indústria química

O objetivo último da agricultura não é cultivar as plantas, mas sim cultivar os seres humanos” Massanobu Fukuoka

Quando se fala em qualidade de vida é preciso pensar nas seguintes informações: 97% da água do planeta está poluída; 280 milhões de pessoas estão ameaçadas pela desertificação; 10 espécies de animais desaparecem diariamente; 388 milhões de toneladas de lixo tóxico são jogadas anualmente no meio ambiente; o leite materno de todas as mães do mundo está contaminado com DDT e outros agrotóxicos. Ou seja, é praticamente impossível ampliar a qualidade de vida das comunidades sob tal condição sem que seja adotada uma postura em relação ao meio ambiente natural e a qualidade do que as alimenta.

Qualidade de vida começa pela saúde do indivíduo e da comunidade e a saúde começa pela alimentação, pela saúde do ambiente e por hábitos saudáveis. Entretanto, orientados por uma cultura que dá mais importância à qualidade da moeda do que às pessoas que as carregam nos bolsos, os meios de comunicação fazem crer por meio de reportagens e opiniões de “especialistas” devidamente pagos pelas corporações que produzem quinquilharias, que o mais saudável é a adoção de uma dieta balanceada com alimentos sem calorias, refrigerantes dietéticos, sopas cheias de conser-vantes, acidulantes e es-pessantes, pílulas emagrecedoras, chazinhos, pão de centeio e outras quimeras do consumismo.

O mesmo “deus” chamado lucro, que enxerga todo o mundo como um dígito do PIB – Produto Interno Bruto, impõe a falsa e furada tese originária da “revolução verde” como necessidade de alimentar o mundo (leia-se ganância dos fabricantes de aditivos químicos pesticidas e agro-tóxicos) de que a qualidade do alimento está na aparência, pode ser percebida na língua: é rica em cores e sabores. Há quase três décadas, porém, os alimentos passaram a ser vistos como sinônimos de bem-estar, redução de riscos de doença e veículos de uma melhor qualidade de vida.

Segundo a professora Elizabeth Torres, do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), o crescimento da demanda por produtos especiais como alimentos orgânicos ou funcionais, também chamados “nutracêuticos” (que produzem benefícios à saúde além dos nutrientes tradicionais que eles contém), reside nas evidências sobre os seus efeitos saudáveis. “Os consumidores estão mais conscientes de que a alimentação é um fator crítico para a manutenção da saúde”, afirma a professora.

A agricultura convencional com seus métodos de produção baseadas em aplicações de altas doses de fertilizantes, agrotóxicos e adubos químicos promove a redução dos nutrientes dos alimentos (vitaminas e sais minerais), o aumento considerável de toxinas (como os nitratos que causam câncer); redução das substâncias que formam as proteínas; redução do teor de açúcares em frutas e hortaliças; modificação da cor, do sabor e do aroma dos alimentos. Não serve nem para uma real obtenção de lucro, já que a sua alta produtividade só é possível com a utilização de insumos e financiamentos cada vez mais caros e em maior quantidade, tornando o custo de produção altíssimo.

O sistema orgânico, ao contrário, produz alimentos com maior valor nutricional, com total ausência de toxicidade, têm mais resistência após a colheita, composição equilibrada e que ainda auxiliam na prevenção de doenças. De quebra, seu custo de produção é de até 14% menos do que no sistema convencional e o lucro entre 30% a 127% maior, com idêntica produtividade. Além disso, privilegia a preservação da saúde ambiental e humana, sem desrespeitar a integridade cultural e objetivando a auto-sustentação no tempo e no espaço, a maximização dos benefícios sociais e a minimização da dependência de energias não-renováveis.

A agricultura orgânica compreende a produção de alimentos de origem vegetal e animal sem a utilização de agroquímicos (agrotóxicos e antibióticos) ou outros agentes que contaminam o homem e a natureza. É um conjunto de sistemas de produção que busca obter o máximo de benefícios sociais, considerando a ética, a cidadania, a saúde dos envolvidos e o solo como um organismo complexo, através de uma visão sistêmica (também chamada holismo) em que o conjunto homem e natureza não pode ser compreendido separadamente.

O consumidor bem informado sabe comparar e, sem dúvida, não gosta de engolir gato por lebre. No “primeiro mundo”, os fabricantes da vaca louca já estão com a pulga atrás da orelha. O crescimento da produção de alimentos “naturais” (usando uma expressão genérica típica das décadas anteriores) é tão grande que na Europa existe uma estimativa de que em 2005, 70% dos produtos comercializados em supermercados serão orgânicos.

Atualmente, a Europa conta com mais de 85 mil produtores, os EUA com 8 mil e no Brasil já são 4.317 produtores imprimindo qualidade em culturas como soja, café, hortaliças, frutas, açúcar mascavo, feijão, milho, óleos, erva-mate e sucos concentrados. São mais de 2 milhões de hectares de áreas certificadas para a produção orgânica em cerca de cem países. A área certificada no Brasil já passa dos 80 mil hectares, dos quais, 20,8 mil são do Paraná (26% da área brasileira), Estado campeão de produção, com 2.417 agricultores orgânicos. Esse número, no entanto, dobra a cada ano. Na safra 96/97, por exemplo, o volume foi de 4,3 mil toneladas; na safra 99/00, 49.788 mil toneladas. De 97 para 98 o crescimento foi de 335%; em 99, 40%; e em 2000, 89%.

Segundo dados da Emater/PR, a renda bruta gerada pela produção orgânica paranaense ultrapassou a casa dos R$ 26 milhões em 99 e pode triplicar em 2001 devido ao crescimento do número de produtores certificados. Cidades paranaenses como Capanema, Santa Isabel do Oeste, Pato Branco e Francisco Beltrão, no Sudoeste do Estado, são responsáveis por quase a totalidade do soja orgânico produzido no Brasil (25 mil toneladas exportadas para a Europa no ano passado). As principais cidades produtoras do Paraná são: Curitiba, Ponta Grossa, Lapa, Francisco Beltrão e Guarapuava (hortaliças, plantas medicinais, frango, leite, feijão e erva-mate); Capanema, Santa Isabel e Salgado Filho (soja, açúcar mascavo, hortaliças, frutas, frango e leite), Cornélio Procópio, Abatiá, Londrina e Santo Antonio da Platina (café e açúcar mascavo); Prudentópolis (feijão); Irati, Lapa e União da Vitória (milho), Morretes, Antonina e Guaraqueçaba (banana passa, gengibre e arroz irrigado).

Intimidade com a natureza

Todas essas correntes alternativas opõem-se à agricultura convencionada dos capitalistas e estão ganhando cada dia mais espaço no mercado. A alta demanda, que ultrapassa o dobro da produção, é empurrada por consumidores exigentes e que não se deixam enganar facilmente, apesar das armadilhas preparadas pela mídia. O consumidor de hoje não só está atento à qualidade do que digere, mas também na sua saúde, na de quem produz e na saúde do ambiente em que o seu alimento é produzido.

Essas atitudes vão de encontro ao conceito de ecologia profunda, adotado pela agricultura orgânica. Hoje, as pessoas começam a deixar de lado a passividade e já definem a qualidade do produto que quer consumir. Até há pouco tempo, os agricultores alternativos praticavam o sistema orgânico porque sabiam ser esta a única forma de garantir que a qualidade do alimento que colhiam e comiam fosse sustentada pela qualidade do ambiente de origem e do sistema agrícola. Esses próprios agricultores, organizados e orientados por esta exigência, criaram uma forma de garantir a origem do alimento de qualidade orgânica através de um selo de certificação. Mas para ter o selo em seus produtos o agricultor precisa recuperar a qualidade orgânica do solo e do ambiente que o envolve, detalhar todas as etapas de conversão e transição dos produtos convencionais para o ecológico, por um período mínimo de 18 meses para culturas perenes e 12 meses para pastagens, segundo a Instrução Normativa Nº.7 (de 17 de maio de 1999), do Ministério da Agricultura e Abastecimento, que estabelece as normas de produção, tipificação, processamento, envase, distribuição, identificação e certificação da qualidade para produtos orgânicos de origem vegetal e animal.

O período exigido pela maioria das entidades certificadoras, entretanto, é muito maior, com um mínimo de três anos para culturas perenes e dois anos para pastagens. Dependendo da área escolhida para a conversão, como as que passaram por intensivos usos de produtos químicos, o tempo pode ser ainda maior. A certificação é rigorosa, pois o selo de qualidade orgânica indica um amplo e cuidadoso trabalho envolvendo o produto, como o acompanhamento e inspeção técnica sistemática.

Para produzir alimentos orgânicos o agricultor precisa ter uma postura ecológica. É na postura, aliás, juntamente com parte da técnica, que as entidades e empresas certificadoras exigem critérios mais rigorosos. Em outras palavras, para o agricultor ter os seus produtos certificados precisa ser íntimo da natureza, conhecer profundamente as características do ecossistema de sua propriedade e compreender perfeitamente as leis que regem o mundo físico. E intimidade do agricultor com a natureza significa que ele é ecologicamente alfabetizado.

Alternativa ecológica

Desde a década de 60, quando era chamada de “alternativa” contra os malefícios gerais da “revolução verde” (que introduziu uma sistemática exploração do solo através de recursos químicos), a agricultura orgânica ou biológica está dividida em várias linhas: biodinâmica, ecológica ou natural e permacultura ou agricultura permanente. Apesar de aplicarem diferentes conceitos para o sistema de cultivo, todas essas correntes partilham os mesmos objetivos e princípios gerais da produção sustentável: reciclagem de recursos, integração de processos e diversificação cultural.

A Agricultura Orgânica é a denominação mais difundida e congrega praticamente todas as linhas. As observações feitas no início do século pelo botânico e agrônomo inglês, Albert Howard, em relação ao sistema agrícola praticado pelos componeses indianos deram início ao conceito orgânico.

A Agricultura Biodinâmica teve seu início num ciclo de oito palestras feitas na década de 20, na Polônia, pelo filósofo Rudolf Steiner, que formulou uma nova filosofia para ser aplicada na medicina, na pedagogia e nas artes: a antroposofia. A biodinâmica considera que a saúde do solo, das plantas e dos animais dependem também de sua conexão com as forças de origem cósmica da natureza. Com critérios mais científicos e laboratoriais que as outras correntes, o conceito de agricultura biodinâmica abrange as influências dos planetas sobre a planta, de forma individual, ou seja, cada pé de alface é um ser integral cuja qualidade física e energética vai contribuir para a qualidade do todo.

A Agricultura Natural é uma corrente criada em 1935, quando Mokiti Okada (1882-1955), fundador da Igreja Messiânica, propôs um sistema de produção agrícola que tomasse a natureza como modelo. De acordo com Okada, a harmonia e prosperidade entre os seres vivos é fruto da obediência às leis da natureza. A Permacultura, também chamada de agricultura permanente, originou-se com as propostas de Bill Mollison, na Austrália, por volta de 1976. Diferente de Okada, Mollison procurou imitar não só as leis da natureza no sistema agrícola, mas a própria disposição vegetal e animal do ecossistema. A permacultura procura praticar uma agricultura de forma mais integrada possível com o ambiente natural, imitando a composição espacial das plantas encontradas nas matas e florestas nativas. Envolve plantas semi-permanentes (mandioca e banana) e permanentes (árvores frutíferas e madereiras), incluindo a atividade produtiva de animais e lavouras.

Obedecendo as Leis do Universo

A agricultura orgânica é também chamada de ecológica porque segue um conjunto de princípios de organização que podem ser identificados como os princípios básicos da ecologia, que, segundo o físico Fritjof Capra no livro A Teia da Vida, são:

a) interdependência – a dependência mútua de todos os processos vitais do sistema, que deriva suas propriedades essenciais e a sua própria existência nas relações com outras coisas (a saúde de cada membro do ecossistema depende da saúde de muitos outros);

b) reciclagem – a natureza cíclica dos processos ecológicos é um importante princípio da ecologia. Os laços de realimentação dos ecossiste-mas são as vias ao longo das quais os nutrientes são continuamente reciclados (sendo sistemas abertos, todos os organismos de um ecossistema produzem resíduos, mas o que é resíduo para uma espécie é alimento para outra, de modo que o todo permanece livre de resíduos);

c) parceria e cooperação – uma característica essencial da natureza, uma tendência para estabelecer ligações, para viver dentro de outro organismo e para cooperar – é um dos certificados de qualidade da vida;

d) flexibilidade – é o resultado dos múltiplos laços de realimentação da natureza, que tendem a levar o sistema de volta ao equilíbrio sempre que houver um desvio com relação à norma, devido a condições ambientais mutáveis;

e) diversidade – nos ecossistemas, a complexidade da rede é uma consequência da sua biodiversidade. Uma comunidade ecológica diversi-ficada é uma comunidade elástica, capaz de se adaptar a situações mutáveis.

Todos esses princípios levam ao objetivo principal da natureza, a sustentabilidade.

Quem certifica orgânicos

IBD – Instituto Biodinâmico

Fundado em 1982, o Instituto Biodinâmico de Butucatú, São Paulo, promove a disseminação dos princípios e práticas da agricultura biodinâmica e orgânica, através de atividades como inspeção, certificação da propriedade, da produção, do processamento e de insumos. Conta com dois credenciamentos internacionais, o que permite que seu certificado seja aceito nos três principais blocos econômicos. No Brasil, atualmente existem 250 projetos certificados pelo IBD dos quais participam mais de 2000 produtores, totalizando 60 mil hectares de produção agroecológica.

AAO – Associação de Agricultura Orgânica

Criada em 1989, a . AAO tem sua sede no Parque da Água Branca, em São Paulo. Além de promover uma feira semanal de produtos orgânicos no parque, criou um selo próprio, o qual possibilitou que a venda dos produtos orgânicos por ela certificados atingisse atualmente seis cadeias de supermercados no Estado de São Paulo.

Assesoar – Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural

Com sede em Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná, a Assesoar, além de possuir cursos permanentes de formação de agricultores ecológicos, certifica, produz sementes orgânicas e fornece toda orientação técnica necessária para a conversão. Atua há mais de 30 anos na região que mais produz alimentos orgânicos no Brasil.

ABIO – Associação de Agricultores Biológicos

Criada em 1985, a partir da 1ª Feira de Produtos Orgânicos do Brasil, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, hoje é responsável pela certificação de 120 unidades produtivas. Coordena duas feiras de produtos orgânicos, uma no Rio de Janeiro e outra em Niterói.

ANC – Associação de Agricultura Natural de Campinas

Atua desde agosto de 1991, certificando produtos agroecológicos na região de Campinas, São Paulo. Participa do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente, realiza pesquisas, cursos técnicos e três feiras na cidade de Campinas.

Coolmeia – Cooperativa Ecológica

Fundada em 1978, a Coolmeia certifica e fornece um selo próprio aos agricultores do Rio Grande do Sul, presta assessoria através de cursos, palestras e projetos para propriedades rurais ecológicas, coordena uma feira em Porto Alegre e administra um restaurante e uma lanchonete só com alimentos orgânicos produzidos pelos agricultores cooperados.

MOA – Fundação Mokiti Okada

Desenvolvendo a agricultura natural desde 1979, a Fundação capacita produtores de todo o Brasil, América Latina, Europa e África.

Criada em 1985, a partir da 1ª Feira de Produtos Orgânicos do Brasil, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, hoje é responsável pela certificação de 120 unidades produtivas. Coordena duas feiras de produtos orgânicos, uma no Rio de Janeiro e outra em Niterói.

ANC – Associação de Agricultura Natural de Campinas

Atua desde agosto de 1991, certificando produtos agroecológicos na região de Campinas, São Paulo. Participa do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente, realiza pesquisas, cursos técnicos e três feiras na cidade de Campinas.

Coolmeia – Cooperativa Ecológica

Fundada em 1978, a Coolmeia certifica e fornece um selo próprio aos agricultores do Rio Grande do Sul, presta assessoria através de cursos, palestras e projetos para propriedades rurais ecológicas, coordena uma feira em Porto Alegre e administra um restaurante e uma lanchonete só com alimentos orgânicos produzidos pelos agricultores cooperados.

MOA – Fundação Mokiti Okada

Desenvolvendo a agricultura natural desde 1979, a Fundação capacita produtores de todo o Brasil, América Latina, Europa e África.

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