A revisão do mundo

montanhas

do blog Além das Montanhas Coloridas

O fictício vilarejo de Isen, do romance “Alem das Montanhas Coloridas“, de Silzi Mossato, é um mundo perfeito e encantador:

Isen era uma cidadezinha singela que ficava espremida entre o rio e as montanhas. Suas ruas, calçadas com pedras vermelhas, ocre, grafite e cinza, exibiam desenhos cuidadosamente organizados. Três delas seguiam as águas que correndo em leito de pedras, circundavam o aglomerado de casas. As demais, que não passavam de meia dúzia de transversais, iam do rio as montanhas e das montanhas ao rio. Apenas uma era ligada à ponte de madeira bruta e dava passagem para as trilhas que se espalhavam pelo campo. Todas, no entanto, convergiam para a trilha maior, que depois de se arrastar pelos limites do lugarejo, subia a montanha até a única pedra lilás da região.

Mas para o jovem Yan, mesmo o perfeito precisa de uma revisão, que passa pela necessidade de experimentar e experienciar novos horizontes, novos fazeres, e perspectivas e devolver tudo ao mundo. Tradicionalmente, Isen permitia aos seus habitantes a chance única de mudar as leis:

Yan festejava cada aniversário, mas em segredo aguardava aquele que lhe daria, finalmente, o direito de intervir nas leis de Isen. Era assim que acontecia: a cada habitante que completava dezesseis anos, era dado o direito de, no dia de seu aniversário, pedir uma única alteração nas leis do lugar. Cabia ao aniversariante inventar um ritual solitário e durante o mesmo, rogar para que seu desejo fosse concretizado.

O livro “Alem das Montanhas Coloridas” está disponível na internet: nas versões e-book e impresso. O leitor pode ainda baixar o primeiro capítulo gratuitamente para aprender a gostar. Para este Natal o livro está em promoção. Confira nos seguintes endereços:

http://alemdasmontanhascoloridas.com.br/

https://clubedeautores.com.br/books/search?utf8=%E2%9C%93&where=books&what=Silzi+Mossato&sort=&topic_id=

Além das Montanhas Coloridas

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Não por obra do acaso

Instado pela postagem “A fórmula Veja de Jornalismo“, por Henrique, o Outro, no blog do Nassif, fui pesquisar no Google – sim! Porque sempre me sinto intimado a ir mais fundo, até mesmo para absorver melhor a informação. O autor do artigo cita o livro “O andar do bêbado”, do físico norte americano Leonard Mlodinow, argumentando ser dessa obra que a Veja extraiu a sua fórmula de jornalismo de esgoto. Cliquei no primeiro link do Google e, não por obra do acaso, caí exatamente numa página da revista Veja que resenha o tal livro. O título da resenha, que li empolgado, confirma a tese de Henrique: “Por obra do acaso”.  Num trecho do livro, publicado na própria Veja, Mlodinow cita:

“O filósofo e matemático britânico Bertrand Russell escreveu: Todos começamos com o “realismo ingênuo”, isto é, a doutrina de que as coisas são aquilo que parecem ser. Achamos que a grama é verde, que as pedras são duras e que a neve é fria. Mas a física nos assegura que o verdejar da grama, a dureza das pedras e a frieza da neve não são o verdejar da grama, a dureza das pedras e a frieza da neve que conhecemos em nossa experiência própria, e sim algo muito diferente.”

Vemos o mundo de acordo com os mitos que conhecemos. Está, por exemplo, na rede neural de grande parcela da sociedade brasileira a imagem milhões de vezes processada através da insistência e repetição da velha mídia, que a corrupção é prerrogativa dos políticos, mais propriamente, da esquerda que ascendeu ao poder com o intuito apenas de roubar o erário público. Não por obra do acaso, a revista Veja é a que mais repete este jargão e lança, todas as semanas, a pauta para o resto da mídia atrelada no trem do golpe político que já derrubou cinco ministros de Estado e tenta derrubar mais um, Orlando Silva, dos Esportes, com denúncias cujas provas jamais aparecem, batendo na mesma tecla da corrupção que assola onde houver alguem do PT e do PC do B.

Como afirma a tese de Mlodnow, as estatísticas não servem de base para o acerto de nenhuma previsão. Então, como num jogo de roleta, a Veja e o carrocel da mídia golpista usa dados em que todos os lados tem a mesma face. Mesmo assim, o fracasso e o sucesso do jogo estão sujeitos a forças que nenhum indivíduo ou sistema consegue controlar.

Não por obra do acaso.

O que cantariam hoje as Sibilas?

Resposta óbvia. Profetizar o futuro hoje é fácil demais. Os oráculos tecnológicos são abundantes e estão à disposição. As Sibilas, nos tempos atuais, estariam cantando um poema sobre alvoroço do tempo e da dor que o céu despeja sobre a terra. “Estamos fazendo da Terra um lugar mais dinâmico e violento”, disse Bill McKibben, fundador de 350.org, uma organização que reúne ativistas para enfrentar a crise climática.

Refugiados climáticos

Dias atrás publiquei um artigo afirmando que ninguém, nenhum lugar, está preparado para enfrentar as mudanças climáticas cujas conseqüências são muito mais graves do que as vãs notícias da mídia, muito mais imprescindíveis os planejamentos de ações concretas para a reversão e sustentabilidade por parte dos organismos mundiais e dos governos regionais e muito mais radical as mudanças de hábitos e cultura das sociedades do que supõem os ambientalistas. Ninguém e lugar nenhum está preparado porque serão preciso muito mais do que leis para equacionar os milhares de problemas advindos das mudanças climáticas. Tudo o que temos são “aspirinas” que nem as dores conseguem mais mitigar.

Lendo um artigo de Amy Goodman, apresentadora de Democracy Now!” um noticiário internacional diário, nos EUA, publicado no Carta Maior, pesquei uma solução simples mas que a sanha do capitalismo e os interesses em jogo jamais permitiriam. Goodmam fala da sugestão de Tove Ryding, do Greenpeace, durante o seu discurso na Conferência Nansen sobre Mudança Climática e Deslocamento realizada em Oslo na semana passada, na qual especialistas de diferentes países se reuniram para trabalhar sobre o crescente problema dos refugiados climáticos. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, Antonio Guterres, advertiu para duas ameaças: os desastres de evolução lenta, como as secas e a desertificação, que chegam a “um ponto de inflexão no qual a vida e o sustento das pessoas se encontram seriamente ameaçados a ponto de não terem outra opção que abandonar seus lares”, e “os desastres naturais que arrancam de seus lares grandes quantidades de pessoas em questão de horas”.

Segundo Goodman, “uma das principais preocupações é que se negará um refúgio seguro para esses milhões, ou talvez bilhões, que são ou serão deslocadas de suas casas. Como Naomi Klein, uma verdadeira Paula Revere, advertiu recentemente: “A mudança climática é a maior crise de todas, e meu temor é que, se não formos cuidadosos, se não adotarmos uma visão positiva sobre como a mudança climática pode fazer com que nossas economias e nosso mundo sejam mais justos, mais habitável, limpo e equitativo, então essa crise será explorada para militarizar nossas sociedades, para criar continentes fortificados”.

No seu discursoRyding disse: “estamos falando aqui, de fato, de milhões de postos de trabalho ecológicos, de transformar nossas sociedades em sistemas de energia seguros, estáveis e baseados em energia renovável e eficiência energética”.

Pois então, a partir dessa frase tive uma utópica idéia já formulada e reformulada por sonhadores, artistas, filósofos, ecologistas, hippies e outros mais: se criássemos milhares de pequenas estações de produção de energia ecológica, seja através do sistema eólico, ou solar, seríamos capazes de criar milhões de novos postos de trabalho; se voltássemos nossa produção de alimentos para o sistema orgânico, em vez do industrial, estaríamos implantando um grande sistema preventivo de saúde e ampliando a qualidade de vida; se houvesse uma preocupação real e fundamental em recuperarmos as matas ciliares, teríamos, com certeza, água de melhor qualidade, menos assoreamento e erosão nos campos  e talvez a nossa poesia não falasse tanto de incandescência do sol nas florestas, lágrimas abundantes escorrendo do céu em lamento sobre a terra, águas de março arrasando o verão. Mas tudo isso é utopia. Um poema incompreensível para cérebros estáticos.

Hoje as Sibilas cantam: “Há um fogo imenso corroendo campos e cidades; há um frio imponderável congelando a oportunidade das flores; um deserto crescente despejando multidões dos lares antigos. Porque a estupidez é teimosa e ignorante e a ganância uma névoa espessa sobre o cognoscitivo”. 

São Paulo contra a Razão e o Direito

Repressão policial em São Paulo contra a "Marcha pela Liberdade , dia 20 de Maio de 2011

São Paulo é o estado mais careta da Nação. Careta no sentido de retrógrado, preconceituoso, persecutório, anti-democrático, autocraticamente autóctone, e esses adjetivos estampados na sua cultura demonstram as diferenças visíveis em comparação aos outros entes da federação. Sobre a “Marcha da Maconha”, por exemplo, reprimida em São Paulo com violência semelhante a praticada na época da ditadura militar, em Pernambuco acontece em ritmo de festa e, há mais de 30 anos tem até bloco carnavalesco, o “Segura a Coisa”, que desfila livremente pelas ruas de Olinda. Essa diferença é cultural – e cultura é educação – porque a Constituição Federal parece ser melhor compreendida nos outros estados. De acordo com comentário de Eugênio Issamu sobre o movimento em Pernambuco feito no blog de Luiz Nassif, “em certo momento, os manifestantes vaiaram a Justiça de São Paulo pela proibição da marcha na capital paulista. Em seguida, eles aplaudiram o Ministério Público de Pernambuco “que conhece as garantias da nossa Constituição”, afirmaram pelo carro de som.Mensagens favoráveis ao debate sobre a legalização e a descriminalização da droga eram proferidas no microfone”.

“Pode ter sido novidade para alguns. Mas, a repressão policial a movimentos sociais e manifestações na cidade de São Paulo já é um comportamento comum da PM, dando diversos sinais neste ano. Nas manifestações contra o aumento da tarifa do ônibus, diversos estudantes sofreram com a violência policial que chegou a atingir até mesmo o vereador José Americo do PT. Um estudante foi espancado por mais de 10 policiais enquanto era “detido” e teve sete fraturas no rosto. Em junho do ano passado, também houve forte repressão da polícia contra os movimentos de luta por moradia de São Paulo, como o Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC)”. O relato é de Marta Mattar no Carta Maior, “A violência policial, entretanto, não se restringe apenas a repressão da liberdade de expressão dos diversos movimentos, se estende ao cotidiano nas cidades de SP, sobretudo na capital. Na semana passada, a ONG Anistia Internacional divulgou um relatório sobre as condições dos direitos humanos no mundo no qual chamou atenção do Brasil para a violência policial. Segundo o relatório, no ano de 2009, a polícia matou 543 pessoas em supostos “autos de resistência” no estado de SP. A organização ainda enfatizou o fato de que existem poucas ações judiciais de modo que centenas de homicídios não foram devidamente investigados”.

Repressão Militar durante a ditadura em São Paulo

Repressão Militar durante a ditadura em São Paulo

A repressão se dá até contra a livre manifestação de famílias como o caso das Mães de Maio. “No início deste mês“, relata Mattar, “o movimento das Mães de Maio relembrou a repressão policial que atingiu centenas de jovens há cinco anos atrás, durante as represálias aos ataques do PCC. Segundo relatório encomendado pela ONG Conectas, na semana dos atentados, 492 pessoas foram assassinadas e, dessas, muitas sofreram execuções. Acredita-se que policiais, fora ou não de serviço, junto de milícias foram os responsáveis. Mas, cinco anos após o ocorrido, essas mortes permanecem sem resolução de modo que não houve nenhum julgamento e responsabilização do estado por seus possíveis atos”.

Fatti non foste a viver come bruti, ma per seguir virtute e canoscenza.i, disse Dante Alighieri. Traduzo livremente: não fomos feitos para viver embrutecidos, mas para viver com dignidade, bravura e seguindo a nossa consciência. A repressão em São Paulo vêm de homens que buscam, dos seus postos de poder e domínio, o empobrecimento da razão e do direito.

Um debate preconceituoso

Enviado por Erly Ricci, sab, 21/05/2011 – 11:16
Autor: Erly Ricci

É admirável a falta de discernimento da mídia frente ao debate sobre o ensino da norma culta e da norma popular. O Brasil é um país de imensa diversidade cultural e isso já está previsto nas Diretrizes Curriculares.

A imprensa foi unânime em atacar o livro didático “Por uma Vida Melhor”, de Heloísa Ramos. O que espanta, é que pessoas ditas inteligentes e cultas que militam na imprensa nem se deram ao trabalho de pesquisar as tais Diretrizes Curriculares – disponível no site do Ministério da Educação – que ainda no governo de FHC determinava o ensino das diferenças entre as linguagens (escrita e falada, culta e popular, locais e regionais) e a diversidade cultural. E que simplesmente está contemplada no livro de Heloisa Ramos. Mas, ao que parece, tanta ignorância da mídia e a sua total falta de discernimento tem um propósito ideológico.

De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais, trabalho realizado por uma grande equipe do MEC e coordenado por Sonia Kramer, “tanto na Educação Infantil quanto no Ensino Fundamental as crianças estão aprendendo e, ao mesmo tempo, em função de suas necessidades, interesses e peculiaridades, realizam essa aprendizagem através da imaginação e da fantasia, da expansão e da exuberância de seus gestos e manifestações afetivas. Nesse sentido, a experiência com a cultura, a partir da qual as crianças possam se reconhecer como sujeitos da história, deve ser o eixo articulador das ações dos profissionais, tornando possível o reconhecimento de que a prática pedagógica envolve, necessariamente, conhecimentos e afetos, saberes e valores, cuidados e atenção, seriedade e riso”.

“Uma Educação Infantil que garanta a cidadania às crianças requer propostas pedagógicas que as reconheçam como sujeitos que se expressam sobre o mundo de forma peculiar: na interação com os elementos da natureza e da cultura, com outras crianças e adultos a criança inventa, recria a cultura”

Deixo aqui, então, para o leitor, um documento com a sugestão ainda de que faça pesquisa sobre os Parâmetros Curriculares para que tenha uma idéia exata do assunto.

http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/driretrizes_curriculares_consolidado.pdf
http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/driretrizes_curriculares_consolidado.pdf