Poesia

Poema publicado no Almenara da Palavra

Nosso Medo
Poema de Erly Welton Ricci
Ilustração de Erly Welton Ricci
“Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?”
Manuel António Pina
Não usa sapatos novos
Nem assoma na janela
O uivo de sete paredes
Nosso medo
Ruas mal-iluminadas
Pedra assentada no ombro
O que espreita na lida
Signo de nenhuma estrela
Crucificada no erro
Em vestes corruptíveis
Fala pelos cotovelos
Entre ossos e lama e aço
Cerra olhos e punhos
Nosso medo
Não tem a morte no rosto
Não oferece a outra face
Ferro e fogo do verso
Cálice de vinho e veneno
Inverno de mitos sangrentos
Desperta mil vezes em cena
É uma montanha de pedra
Ciência e deuses no Olimpo
Rosário de sal e de seca
Nosso medo
Punhado de cal na têmpora
O dia que ainda não veio
Barco na névoa espessa
Cova rasa do julgamento
A linha de qual horizonte
Minúcias de zinco e areia
São ferpas e lascas na unha
Estrada longa e estreita
Reza pra todos os santos
O nosso medo
Ferrugem no pó e nos pelos
O sangue de metal e fungos
A certeza de não sabermos
Em doze motes de cera
Grades e muros e cercas
Arame em torno do punho
O nosso medo

 

___________________________________________________

 

 

 

*Hipóstase (substance unknown)

há metafísica na árvore e em cada semente lançada ao solo

há metafísica na terra, na curva das estrelas e na roupa do varal

há metafísica na ética e na política, no dinheiro ou na palavra

há metafísica nos olhos e nas manhãs, nas estradas e avenidas

no ócio e no trabalho há metafísica

há metafísica na grama molhada

há metafísica no medo ou na coragem

na pudicícia ou na realidade

no espaço no tempo ou na causa da cidade

porque nós

dentre as espécies

somos a que nada sabe

*Hipóstase, do grego hypostasis, significa subsistência, realidade. Na filosofia de Plotino, Deus se deriva em três hipóstases: Uno, nous (Inteligência) e alma, que ele comparava também, respectivamente, com à luz, ao sol e à lua. O termo também é encontrado entre os gnósticos. Um dos livros da biblioteca de Nag Hammadi se chama “A Hipóstase dos Arcontes”.

A transcrição latina para Hipóstase é “substância”, que, todavia, foi utilizada pela tradição filosófica com significado totalmente diferente do que a utilizada por Plotino. No sentido contemporâneo, é utilizado de maneira pejorativa, porém raramente. Dessa maneira, indica a transformação de um ser em um ente.

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Vate

essa língua minha

linha que sempre esqueço

é a única que desconheço

essa minha língua estranha

só fala mesmo o que minto

pois quando meu verbo assanha

não consegue dizer o que sinto

não é viva a minha língua

nem morta ou moribunda

ela volta se digo siga

arreia as calças e mostra a bunda

teimosa em confundir a rima

essa minha língua vagabunda

de impronunciáveis dialetos

áreas amplas, vales profundos

signo-língua minha

de consoantes no papel

são vogais de muitas tribos

onde a palavra ainda morreu

ruas violentas, arquivos secretos

se insiste e exige a verdade

o resultado é sempre sangrento

ou vate

Vate

substantivo de dois gêneros

1 indivíduo que faz vaticínio, predição; profeta, vidente

2 aquele que cria ou escreve poesia; poeta

Etimologia

lat. vátes ou vátis,is ‘adivinho, oráculo; agoureiro; profeta, vidente; poeta, vate; mestre (em uma arte)’; ver vat(i)-

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Nosso medo

Não usa sapatos novos

Nem assoma na janela

O uivo de sete paredes

Nosso medo

Ruas mal-iluminadas

Pedra assentada no ombro

O que espreita na lida

O nosso medo

Signo de nenhuma estrela

Crucificada no erro

Em vestes corruptíveis

Nosso medo

Fala pelos cotovelos

Entre ossos e lama e aço

Cerra olhos e punhos

Nosso medo

Não tem a morte no rosto

Não oferece a outra face

Ferro e fogo do verso

O nosso medo

Cálice de vinho e veneno

Inverno de mitos sangrentos

Desperta mil vezes em cena

O nosso medo

É uma montanha de pedra

Ciência e deuses no Olimpo

Rosário de cal e areia

Nosso medo

Punhado de sal na têmpora

O dia que ainda não veio

Barco na névoa espessa

Nosso medo

Cova rasa do julgamento

A linha de qual horizonte

Minúcias de cal e areia

Nosso medo

São farpas e ferpas na unha

Estrada longa e estreita

Reza pra todos os santos

O nosso medo

Ferrugem no pó e nos pelos

O sangue de metal e fungos

A certeza de não sabermos

O nosso medo

Em doze motes de cera

Ferro de muros e cercas

Arame em torno do punho

O nosso medo

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Quase apocalíptico

Será necessária a queda do sol

Marte explodindo sobre new york

Chuva de pedras da lua

Serão necessários mares fervendo

O gelo dos árticos encobrindo céus

Esfoliação da pele dos ritos

Será necessário o sangue nas gruas

A merda espalhada nos condomínios

A praga de mil bestas rugindo

Será necessário plastificar o dia

A unanimidade do grito no escuro

Queimar as florestas nos meses pares

Serão necessárias moendas de carne

Gases venenosos na superfície

Baixar a cognição ao zero

Será necessária a acidez dos planos

Satanizar deuses e gênios

Tornar cinza todo amarelo

Será necessário uivar novamente

Estriquinina jogada na fonte

Sacrificar todo ente in vitro

Será necessário copiar os ossos

Desfragmentar portas e janelas

Ferir a noite permanentemente

Será necessária a massa dos muros

O inferno que faz suar muitos sonhos

Acumular dejetos na mesa

Será necessário inventar tantos mitos

Comer a alma atirada na lida

A filosofia do ouro e do sal

Serão necessários caminhos tortos

Pedra na fronte e no sapato

Transpor palavras com subescrituras

Serão necessárias as dores alheias

Ouvir o ruído da fome e da sede

Incendiar cidades e aldeias

Serão necessários alguns anos ainda

Engravidar a mulher do próximo

O sangue vulcânico nas veias

Será necessário um punhal no pescoço

Mais de três bailarinas nuas

Fumar raiz de jurema

Será necessário risível piedade

muito gás carbônico na veia

auras cheias de escamas

Será necessário cancelar as lendas

a mente enredada na teia

para criar novo plano

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